{"id":18898,"date":"2014-04-28T17:38:53","date_gmt":"2014-04-28T17:38:53","guid":{"rendered":"https:\/\/dev.cenb.org.br\/?p=18898"},"modified":"2025-04-07T16:02:12","modified_gmt":"2025-04-07T16:02:12","slug":"20140428","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cenb.org.br\/pt\/column\/20140428\/","title":{"rendered":"Nikkey &#8211; Reminisc\u00eancias (1)"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n\n\n\n<p>O Instituto Brasil-Jap\u00e3o Integra\u00e7\u00e3o Cultural e Social vem desenvolvendo um trabalho de registro hist\u00f3rico pertinente \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o japonesa no Brasil, entrevistando alguns imigrantes e descendentes. A entidade concedeu permiss\u00e3o para n\u00f3s reproduzirmos a transcri\u00e7\u00e3o de algumas destas entrevistas no nosso site. Apresentamos, portanto, como a primeira desta s\u00e9rie a entrevista do sr. Oshikiri:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Entrevista Dr. Flavio Oshikiri<\/strong><br>Dr. Fl\u00e1vio Tsuyoshi Oshikiri \u00e9 um bem sucedido advogado, s\u00f3cio-diretor da Ohno e Oshikiri Advogados, com atua\u00e7\u00e3o destacada na sociedade nipo-brasileira. Imigrante p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, ocupou e ocupa cargos importantes em entidades brasileiras, sobretudo relacionadas com a comunidade Nikkei. Atualmente ocupa o cargo de presidente da Yamagata Kenjin Kai e de diretor do Jinmonken (Centro de Estudos Nipo-Brasileiros), entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Entrevistador<\/em><br>Dr. Fl\u00e1vio, sabemos que o senhor viveu a inf\u00e2ncia no Jap\u00e3o, em um per\u00edodo muito conturbado, durante a Segunda Guerra Mundial e depois no per\u00edodo logo ap\u00f3s o t\u00e9rmino da conflagra\u00e7\u00e3o. Gostar\u00edamos que o senhor nos contasse um pouco da sua viv\u00eancia nessa \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Oshikiri<\/em><br>Pois n\u00e3o. Eu nasci no interior da prov\u00edncia de Yamagata, na cidade chamada Obanazawa. \u00c9 uma regi\u00e3o que fica entre as montanhas, na cordilheira chamada \u014cshu Sanmyaku. Ela se situa na parte central da regi\u00e3o de T\u014dhoku, ao norte do Jap\u00e3o, banhado pelo Mar do Jap\u00e3o. No inverno vem vento frio da Sib\u00e9ria que provoca nevascas tremendas nessa regi\u00e3o montanhosa. Hoje mesmo estava vendo no informativo da televis\u00e3o japonesa que perto da terra onde eu nasci a neve chegou a dois metro e quarenta cent\u00edmetros! Por a\u00ed se pode ter uma ideia de como \u00e9 essa regi\u00e3o. Outra refer\u00eancia sobre o lugar voc\u00ea encontra na est\u00f3ria de Oshin \u2013 uma novela muito conhecida -, porque ela nasceu bem pertinho de minha casa, a uns tr\u00eas quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Eu nasci em 1938 e logo depois o Jap\u00e3o entrou em guerra. Lembro-me de que quando tinha seis, sete anos, o Jap\u00e3o estava numa situa\u00e7\u00e3o de pen\u00faria. Toda safra de arroz tinha de ser entregue obrigatoriamente para o governo e n\u00f3s com\u00edamos batata-doce, n\u00e3o havia possibilidade de escolha. O meu irm\u00e3o, por exemplo, como foi obrigado a comer batata-doce todo dia, come\u00e7ou a detest\u00e1-la, depois n\u00e3o conseguia nem v\u00ea-la. Eu, apesar de ter vivido essa fase, continuei gostando de batata, interessante que naquela \u00e9poca, a maioria das fam\u00edlias japonesas, mesmo pobres, tinham bastante filhos porque o governo central entendia que os filhos eram tesouros do pa\u00eds ou dos pais &#8211; para poder fortalecer o pa\u00eds tinha que ter bastante filhos. Ent\u00e3o \u00e9ramos nove irm\u00e3os. Sou o pen\u00faltimo, quase fora do previsto.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Entrevistador<\/em><br>A maioria das fam\u00edlias, os seus vizinhos, tinha muitos filhos?<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Oshikiri<\/em><br>Tinha muitos. Quando eu entrei no prim\u00e1rio, tinha escola na pr\u00f3pria vila onde morava. Acho que a vila tinha umas quarenta fam\u00edlias, mas, como os filhos eram numerosos havia uma escolinha para atender aqueles do primeiro e do segundo ano do prim\u00e1rio. Cada classe tinha quase vinte, trinta alunos, sendo tr\u00eas ou quatro de cada fam\u00edlia. Lembro-me de que, como era no interior, n\u00e3o sent\u00edamos efeito direto da guerra, n\u00e3o caiu bomba at\u00f4mica l\u00e1. A gente vivia no meio da natureza. No ver\u00e3o n\u00e3o precisava piscina &#8211; tinha rio de \u00e1gua limpa, entrava nele, pegava peixe &#8211; ficava o dia inteiro brincando. No inverno tinha esqui e&nbsp;<em>skate<\/em>. Cada um fazia o seu. Pedia para o irm\u00e3o mais velho comprar t\u00e1bua e tentava ajeitar. Naquela \u00e9poca, n\u00f3s jog\u00e1vamos, tamb\u00e9m, beisebol. Mas, n\u00e3o no campo que havia em frente \u00e0 escola porque ele era t\u00e3o pequeno que n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de jogar. Esper\u00e1vamos terminar a safra de arroz quando o arrozal come\u00e7ava a ficar com o ch\u00e3o duro &#8211; l\u00e1 \u00e9 que jog\u00e1vamos. \u00c9 interessante tamb\u00e9m observar o seguinte: a bola usada era feita por n\u00f3s mesmos. Peg\u00e1vamos um peda\u00e7o de pano, amarr\u00e1vamos com linha e aquilo servia de bola. O bast\u00e3o era um pau raspado e a luva era feita de palha de arroz. Tinha pessoas habilidosas capazes de fazer esse tipo de coisas. Ent\u00e3o usava-se bast\u00e3o de pau raspado, bola de pano e luva de palha de arroz, mas a gente n\u00e3o sentia problema nenhum &#8211; para crian\u00e7a era divers\u00e3o muito interessante. Levei muitas broncas por n\u00e3o dar import\u00e2ncia ao estudo, mas, brinquei muito. Foi uma inf\u00e2ncia no meio na natureza.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Entrevistador<\/em><br>Ent\u00e3o n\u00e3o sentiu os efeitos da guerra.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Oshikiri<\/em><br>Senti a falta de comida, vestimenta, cal\u00e7ados, etc. At\u00e9 o colegial, andava s\u00f3 com guet\u00e1 no ver\u00e3o &#8211; conhece guet\u00e1? \u00c9 um tipo tamanco japon\u00eas. Ent\u00e3o era assim &#8211; extremamente pobre.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Entrevistador<\/em><br>Oshikiri \u00e9 um nome muito tradicional na sua regi\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Oshikiri<\/em><br>N\u00e3o. Na prov\u00edncia pr\u00f3xima a minha, mais ao norte, chama-se Akita &#8211; Akita-ken &#8211; e nessa regi\u00e3o tinha bastante fam\u00edlias com esse sobrenome. Na regi\u00e3o onde eu nasci, muitas pessoas, tamb\u00e9m, se chamavam Oshikiri.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Entrevistador<\/em><br>Eram todos agricultores?<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Oshikiri<\/em><br>N\u00e3o, havia diversifica\u00e7\u00e3o, mas, onde eu nasci eram agricultores.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Entrevistador<\/em><br>E as escolas, como eram?<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Oshikiri<\/em><br>No local onde eu morava tinha o prim\u00e1rio, mas era&nbsp;<em>bunk\u014d<\/em>&nbsp;\u2013 literalmente significa escola repartida \u2013 na qual as crian\u00e7as novas cursavam os primeiros anos, uma esp\u00e9cie de filial. O que me lembro daquela \u00e9poca \u00e9 que tinha uma professora, Kanto&nbsp;<em>sensei<\/em>&nbsp;que era uma do\u00e7ura de pessoa. E para terceiro e quarto ano era o professor Honma. Ele veio da regi\u00e3o de Sakata onde Honma era fam\u00edlia tradicional. Esse professor era muito bravo. Ainda me lembro do dia em que levei bronca na aula de biologia. Cri\u00e1vamos coelhos e ele escalonava alunos para aliment\u00e1-los, mas, um dia esquecemo-nos de dar alimentos &#8211; precisa ver a bronca que levamos no dia seguinte. Nunca me esque\u00e7o dessa bronca. Fazia parte das aulas de ci\u00eancias, ainda que muito elementar. Al\u00e9m disso, estudava-se japon\u00eas, m\u00fasica infantil, matem\u00e1tica, essas coisas. O quinto e sexto ano deveria ser cursado em outra escola distante quatro quil\u00f4metros e todo dia tinha que ir a p\u00e9, n\u00e3o tinha bicicleta, \u00f4nibus ou qualquer outro ve\u00edculo de transporte. No inverno era terr\u00edvel, tinha que andar em fileira, mas acho que isso fez que, de certa forma, eu ficasse bem mais forte. Na \u00e9poca, tinha onze ou doze anos. No ginasial (<em>ch\u016bgakk\u014d<\/em>), quando tinha treze, quatorze anos, fui para outra escola distante mais dois quil\u00f4metros &#8211; andava todo dia seis quil\u00f4metros para ir e para voltar, mas andava de grupo.<br>(continua)<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Instituto Brasil-Jap\u00e3o Integra\u00e7\u00e3o Cultural e Social v [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_gspb_post_css":"","footnotes":""},"categories":[427],"tags":[],"class_list":["post-18898","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-column"],"blocksy_meta":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cenb.org.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18898","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cenb.org.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cenb.org.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cenb.org.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cenb.org.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18898"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cenb.org.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18898\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18899,"href":"https:\/\/cenb.org.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18898\/revisions\/18899"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cenb.org.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18898"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cenb.org.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18898"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cenb.org.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18898"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}