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quinta-feira, 26 de setembro de 2013

As pessoas dos primórdios da imigração devem conhecer o número 49 da Rua Conde de Sarzedas, na cidade de São Paulo. Era a pensão mais antiga dos japoneses residentes, administrada pelo casal Yazō Uechi.
O Sr. Uechi nasceu em 8 de fevereiro de 1873 (6º ano da Era Meiji), o oitavo filho de seu pai, Kihachi, na vila Shiomisaki, distrito Nishi-Muro, província de Wakayama.
Em 1892 (25º ano da Era Meiji), ele se mudou para a Austrália, onde se envolveu na coleta de pérolas, pesca e outras atividades por vinte anos, chegando a construir uma base de vida estável. No entanto, ele ficou indignado com a legislação de exclusão de asiáticos que foi implementada naquele país e retornou ao Japão em 1912 (45º ano da Era Meiji).
Porém, o casal, que já havia respirado o ar do exterior, não conseguiu permanecer por muito tempo em sua terra natal, que lhes parecia estreita. Eles decidiram ir para o Brasil, na América do Sul, chegando ao país em agosto de 1913 (2º ano da Era Taishō), como viajantes livres, via Marselha, França.
Naquela época, o número de imigrantes japoneses distribuídos pelas fazendas de café no interior do estado de São Paulo já ultrapassava dez mil e, por volta de 1916-1917 (5º e 6º anos da Era Taishō), um número considerável de patrícios vindos das lavouras circulava pela Rua Conde de Sarzedas.
Consequentemente, havia a necessidade de uma hospedaria onde essas pessoas pudessem se hospedar com tranquilidade. Uechi, que tinha experiência como cozinheiro em sua época na Austrália, decidiu abrir a hospedaria no já mencionado número 49. Por ser um lugar apertado, em 1920, ele se mudou para o número 11 da Rua Bonita, bem próxima, e desde então manteve o negócio em pleno funcionamento.
No entanto, em 1932 (7º ano da Era Shōwa), infelizmente sua esposa faleceu de doença. Como o casal não tinha filhos biológicos, e Uechi estava idoso, ele não conseguiu continuar sozinho. Assim, no ano seguinte, em 1933 (8º ano da Era Shōwa), a Hospedaria Uechi, que havia sido familiar aos patrícios no Brasil por dezessete anos, foi forçada a fechar.
Depois disso, o Sr. Uechi mudou-se para o sítio, onde viveu sozinho e solitário, plantando vegetais. Infelizmente, após o fim da guerra, ele adoeceu e encerrou sua vida turbulenta e infeliz.
A razão pela qual expressamos gratidão ao falecido casal Uechi em nome da colônia não é simplesmente por terem gerenciado a hospedaria mais antiga dos japoneses residentes. É porque, durante longos dezessete anos, embora fosse uma hospedaria, eles puseram de lado o lucro e se dedicaram unicamente aos seus patrícios como pessoas nos bastidores.
Durante o período de confusão da imigração, encontravam-se frequentemente vários incidentes trágicos decorrentes da pobreza econômica e, às vezes, situações que, se fossem resolvidas, poderiam ser benéficas para o futuro dos imigrantes.
No entanto, como todos se preocupam com seu próprio bem-estar, mesmo que tivessem a intenção, poucos se atreviam a ajudar.
Nesse aspecto, o casal Uechi havia experimentado anteriormente na Austrália a solidão e a indignação racial por terem sido oprimidos pela raça branca. É claro que isso também dependeria da personalidade do casal, mas é provável que a sublimação desses sentimentos tenha contribuído para que o gerenciamento da hospedaria naturalmente se esquecesse do lucro.
Há até uma história antiga que ilustra como o Sr. Uechi era popular na "cidade baixa":
Enquanto Jinzaburō Takizawa e Torajirō Murakami estavam comendo sukiyaki na Hospedaria Uechi, eles iniciaram uma grande briga após uma discussão. Quando o Sr. Uechi interveio para mediar, o cônsul-geral Matsumura, que estava na mesma mesa e também estava embriagado, deu um tapa no Sr. Uechi, dizendo: "Não cabe a Uechi se meter na briga de Takizawa e Murakami".
Isso se tornou um grande problema para os residentes da Rua Conde de Sarzedas, que alegavam que Uechi havia sido insultado. A comunidade se revoltou, dizendo: "Quem é esse cônsul-geral? Não perdoaremos até que Matsumura se desculpe formalmente!". A confusão foi tamanha que todos se prepararam para marchar sobre a residência consular. Por fim, o cônsul-geral Matsumura enviou o secretário Tarama como seu representante para se desculpar pelo erro, e só assim o assunto foi finalmente resolvido.
De qualquer forma, na época, o local era agitado: os desocupados proeminentes no Brasil, os jovens do Consulado e da Companhia Ultramarina de Colonização (KKKK), até mesmo o cônsul-geral, todos bebiam, comiam e realizavam reuniões na Hospedaria Uechi.
O futuro presidente da Nippaku, Sack Miura, Takashi Watanabe da Cooperativa de Mogi (Moji Sangu-mi), o cônsul Tomiya Koseki, Jinzaburo Takizawa e Torajiro Murakami eram frequentadores assíduos.
Entre esses desocupados solteiros, é provável que houvesse alguns que ficaram sem pagar a conta da hospedagem por um ou até dois anos. Mesmo assim, o casal Uechi nunca demonstrou desagrado e apenas sorria, dizendo: "Aguardem, essas pessoas certamente farão algo importante um dia!".
O Sr. Torajiro Murakami, por exemplo, após a mudança de Uechi para a Rua Bonita, adoeceu por um longo período e acabou falecendo nesta mesma hospedaria.
Dizem que o próprio Sr. Uechi apreciava bebidas alcoólicas e ficava feliz cantando canções ruins quando estava bêbado. A diária na época custava 1.500 réis para o tipo "simples" e 2.000 réis para o tipo "superior", hospedagem no andar de cima, com apenas um prato a mais na refeição. Comparado com os 200 mil réis ou 300 mil réis da diária atual, há uma sensação de grande distância no tempo.
Anos mais tarde, muitas pessoas que foram ajudadas pelo casal Uechi formaram uma associação chamada Udon-kai (Clube do Udon) e, em sinal de gratidão, estabeleceram o hábito de tomar uma bebida na Hospedaria Uechi todos os meses.
O velho casal Uechi parecia muito feliz com isso, servindo banquetes que valiam o dobro da taxa de associação, e tratando a todos com essa hospitalidade como sua única alegria.
Embora naquela época a população japonesa em São Paulo já tivesse aumentado e algumas hospedarias japonesas superiores à de Uechi tivessem surgido, havia um número considerável de pessoas notáveis que permaneceram ali como seu "quartel-general", sem se mudarem para outro lugar, até o fechamento da Hospedaria Uechi. É provável que o laço de afeição não lhes permitisse mudar de hospedaria.
Uma peça de teatro não pode ser feita apenas por atores. Nos bastidores e na montagem dos cenários, há necessidade de pessoas excelentes. Da mesma forma, na história da imigração, a colônia de hoje não foi construída apenas pelos "atores" que fazem poses no palco.
Na verdade, foi a presença de muitas pessoas escondidas — como o casal Uechi, que poderíamos chamar de "aqueles que movem o palco do porão" — que fez nascer a brilhante história de cinquenta anos da colônia.