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木村貫一郎 Kan'ichiro Kimura

quinta-feira, 03 de fevereiro de 2011

O Sr. Shuhei Uetsuka, que emigrou para o Brasil em 1908 (41º ano da Era Meiji), tinha como pseudônimo literário Hyōkotsu. Ele compôs quando se encontrava na Hospedaria de Imigrantes:
  Em minha primeira noite no Brasil, Toda esta fogueira me parece Um festival
  (ブラジルの初夜なる焚火祭かな, Burajiru no sho-ya naru takibi-sai kana)

Diz-se que este verso é o primeiro composto por um imigrante japonês no Brasil. O Sr. Kan'ichirō Kimura, que utilizava o pseudônimo literário Keiseki, era amigo íntimo do Sr. Hyōkotsu e mantinha com o Sr. Uetsuka uma amizade tranquila e serena através do haiku.

Em 1936 (11º ano da Era Showa), ele se transferiu da Colônia Aliança para a cidade de São Paulo, onde nasceu a Sansuikai ("Sociedade Três Águas", em tradução livre). Em novembro do ano seguinte, foi planejado o lançamento da revista de haiku Minami jujisei (Cruzeiro do Sul). O plano era que o Sr. Nenpuku Satō ficasse encarregado da seleção dos versos gerais, e o Sr. Keiseki da seleção dos versos da coletânea Minami jūjisei-shū, para que a revista fosse lançada como uma publicação abrangente no mundo do haiku. No entanto, o plano falhou devido à incompatibilidade com o Sr. Nenpuku, que tinha a convicção de que "não existe haiku fora da Escola Hototogisu", e eles acabaram se separando. É relatado que, naturalmente, após a morte do Sr. Keiseki, a revista Minami jujisei não teve escolha senão ser descontinuada.

Em 30 de junho de 1938 (13º ano da Era Showa), ele faleceu aos setenta e dois anos de idade. Em maio do ano seguinte, "Keiseki Kushū" (Coletânea de haikai de Keiseki) foi publicada pelos membros da Sansuikai. Estão reunidos nela 291 versos que haviam sido selecionados nas categorias de tema livre das revistas Hototogisu e Hagi.
  O tambor tsuzumi Ecoa no mikoshi Em meio à grande celebração
  (万才の御輿へ響く鼓かな Manzai no mikoshi e hibiku tsuzumi kana)

Em fevereiro de 1948 (23º ano da Era Showa), a lápide do Sr. Keiseki foi erguida no Cemitério Protestante de Araçá.
  A fogueira que resta, Deixada para o cão Que guarda a noite
  (夜を守る犬に残せし焚火哉 Yoru o mamoru inu ni nokoseshi takibi kana)
O verso está gravado em uma pedra natural, conforme a foto acima.

Dizia-se frequentemente que ele, quando ficava em apuros durante as sessões de haiku, escapava compondo versos que incluíam "fogueira" (takibi) ou "barca" (tosen), mas...
  O frio da manhã, O trabalhador da estrada Aquece-se na fogueira de capim
  (朝寒や道路工夫の草焚火 Asazamu ya dōro kufū no kusa-takibi)
  No rio de outono, Um casal negro Opera a barca
  (秋の川黒奴夫婦の渡舟守 Aki no kawa kokudo fūfu no tosen-mori).
  Cercando a grande fogueira, A sessão de Haiku Enfim começou
  (大焚火囲みて句会初めけりŌ-takibi kakomite kukai hajimekeri)
  A noite da fogueira Amanheceu com geada, Para o novo imigrante
  (焚火の夜霜に明けけり新移民 Takibi no yo shimo ni ake-keri shin-imin)
O Sr. Keiseki compôs versos como estes.

Nasceu em Akasaka, na Província de Mikawa. Após frequentar a Escola Secundária Superior Ichiko de Tóquio, formou-se na Faculdade de Engenharia da Universidade Imperial de Tóquio. Como engenheiro, ele viajou por Mie, Yamanashi, Tóquio e Taiwan. Sua especialidade era a engenharia civil. Ele teve uma carreira como funcionário público de 14 anos e 8 meses, e, embora precisasse de apenas mais quatro meses para ser elegível à pensão por tempo de serviço, ele disse que "o Tesouro Nacional seria ajudado se houvesse um recebedor de pensão a menos", e por essa razão, ingressou no setor privado, tornando-se o engenheiro chefe da Companhia de Energia Hidrelétrica de Niigata. Foi lá que ele se tornou discípulo de Sujū Takano e Mizuho Yamada, iniciando uma vida abençoada de composição de haiku. Ele se tornou amigo do Sr. Nenpuku Satō, que era conhecido como o "gênio da região de Hokuriku" (costa do mar do Japão), e ouviu-se dizer que o Sr. Nenpuku se casou através do intermédio do Sr. Keiseki.

A imigração do Sr. Kimura para o Brasil ocorreu em 1926 (15º ano da Era Taisho), a bordo do navio Hawaii-Maru, e a imigração do Sr. Kenjirō Satō (Nenpuku) ocorreu em 1927 (2º ano da Era Showa), também pelo Hawaii-Maru. O Sr. Keiseki tornou-se seletor da coluna de haiku do jornal Nippaku Shimbun uma vez por mês a partir de julho de 1929 (4º ano da Era Showa) (cargo que ocupou por nove anos até sua morte), enquanto o Sr. Nenpuku tornou-se seletor da coluna do jornal Seihō a partir de 1933 (8º ano da Era Showa), do jornal Brasil Jihō a partir de 1935 (10º ano da Era Showa) e do jornal Paulista a partir de 1948 (23º ano da Era Showa). É certamente uma curiosa coincidência que ambos tenham se tornado pioneiros no mundo do haiku brasileiro.

Após imigrar para o Brasil, ele se instalou na Seção 4 da Colônia Aliança. Em 8 de maio de 1927 (2º ano da Era Showa), realizou-se a primeira sessão de haiku na residência do Sr. Kikuji Iwanami (poeta de tanka, conhecido como Kikuji). A segunda foi na residência do Sr. Roan Ashibe e a terceira foi realizada em 28 de agosto do mesmo ano, na residência do Sr. Keiseki. Esta última coincidiu com o seu aniversário de 60 anos (denominado kanreki) e foi um grande sucesso.
  A bananeira seca, E o botão começa a surgir, Com um ar tão lastimável
  (枯芭蕉つぼみあわれに見え初めて Kare bashō tsubomi aware ni mie hajime-te)
Esta sessão de haiku foi nomeada "Okapo-kai" e estabeleceu o terceiro domingo de cada mês como a data de suas reuniões regulares.

Em janeiro de 1931 (6º ano da Era Showa), [eles] publicaram (lançaram) a revista "Okapo" em conjunto com o círculo de tanka (tanka-kai) presidido (shusai) pelo Sr. Iwanami, sendo o próprio Sr. Iwanami o responsável pela edição.
  Na hora em que a febre ataca Da malária, Vagalumes voam
  (マレータの熱出る頃や蛍飛ぶ Marēta no netsu deru koro ya hotaru tobu)
  Minha esposa, ao acordar, Recomeça a construir O forno de pão
  (妻寝起またパン竃築き初め Tsuma neoki mata pan-kama tsukiki-hajime)
  Com um cacho de banana O idoso troca de ombro Para aliviar o peso
  (一茎のバナナや老の肩替えて Ikkei no banana ya oi no kata kaete)
  Sob a lua crescente E geada, cidade alguma Apenas o cafezal
  (三日月の霜に街なし珈琲畑 Mikazuki no shimo ni machi nashi kōhī-batake)

Em novembro de 1933 (8º ano da Era Showa), durante o período em que supervisionava a obra de construção da Ponte Novo Oriente sobre o Rio Tietê, ele fundou a Han'ya-kai ("Sociedade da Meia-Noite") na Colônia Tietê.
  A tempestade Submerge a lentilha d'água, Golpeada pela chuva
  (萍を叩き沈めし雷雨かな Ukikusa o tataki shizumeshi raiu kana)
  Instrumento de medição Deixado de pé No campo de verão
  (測量機立てつ放しの夏野かな Sokuryōki tatetsu-hanashi no natsuno kana)
  O cochilo do meio-dia Na poltrona artesanal, Feita à mão
  (手細工の安楽椅子の昼寝かな Tezaiku no anraku isu no hirune kana)
  Na espreguiçadeira de vime, Familiarizando-se Cruzeiro do Sul
  (藤寝椅子親しむ南十字星 Fuji ne-isu shitashimu Minamijūjisei)

Naquela época, a Srta. Renjo Nakajima residia na Colônia Tietê. O Sr. Keiseki, que era um comilão, usava as reuniões de estudo de haiku como pretexto para frequentar a casa dela.
  A grama de verão, E o novo imigrante fuma cigarro japonês
  (夏草や敷島を吸う新移民 Natsukusa ya Shikishima o sū shin-imin)
  O filhote de anta É criado na jaula, Com a brisa da primavera
  (獏の子を檻に飼いたり春の風 Baku no ko o ori ni kaitari haru no kaze)
Versos como estes são de autoria da Srta. Renjo sobre a época.

A Colônia Aliança foi alvo do escárnio dos compatriotas residentes no Brasil, por ser o local de concentração dos imigrantes "ginbura" (imigrantes que voltaram ao Japão para gastar dinheiro). No entanto, o fato de ter produzido figuras como Kikuji Iwanami (poeta de tanka) e Shōjirō Namekata (de pseudônimo literário Nangyo) no campo do tanka, e Keiseki Kimura e Nenpuku Satō no campo do haiku, é um feito que permanecerá para sempre na história literária da Colônia no Brasil. Enquanto riam juntos dizendo "Faça tanka em vez de café!" e "Faça haiku em vez de café!", eles compunham seus versos e torciam suas rimas.
  O casal faz bolo de capim, Com mandioca
  (マンジョカの草餅をつく夫婦かな Manjoka no kusayaki o tsuku fūfu kana)  
  As sementes do Japão, Foram semeadas Com esmero e carinho
  [日本の種ねもごろに蒔きにけり(原文ママ)Nihon no tane nemogoro ni makinikeri]
Estes são os versos de Kikuji.
  Apenas curado da ameba, Atravesso o campo de verão
  (アミーバの癒えしばかりや夏野行くAmība no ieshi bakari ya natsuno yuku)
  No meio da multidão, Até mesmo budistas se misturam No Natal
  (その中に仏徒も交りクリスマス Sono naka ni butto mo majiri Kurisumasu)
Estes são os versos de Nangyo.

Os poetas de haiku esticavam o padrão 5-7-5 para compor tanka, e os poetas de tanka se juntavam aos círculos de haiku, reunindo-se, com suas próprias marmitas, para tentar alinhar as dezessete sílabas do haiku com um alongamento no meio. Os domingos na Colônia Aliança, naquela época, eram muito agradáveis.

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