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木村清八 Kiyohachi Kimura

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

A principal figura da Rua Conde de Sarzedas, a chamada "Rua dos Japoneses".
O Sr. Kiyohachi Kimura era uma figura que poderia ser chamada de o principal líder da "Rua dos Japoneses", em São Paulo, assim como o Sr. Yazō Uetsuchi e os irmãos Ryūji Yamada. Ele imigrou para o Brasil no segundo navio de imigrantes, o Ryōjun-Maru, que aportou em Santos em 28 de junho de 1910 (43º ano da Era Meiji).

Nascido na vila de Sugikami, no distrito de Shimomasuki, Província de Kumamoto, ele era conterrâneo do Sr. Shūhei Uetsuka e, provavelmente, mantinha um relacionamento especialmente próximo com ele. O Sr. Uetsuka, até seus últimos anos de vida, quando visitava São Paulo sempre ficava hospedado na residência do Sr. Kiyohachi Kimura na rua "Conde", como também é conhecida.

As pessoas mais antigas no Brasil, em geral, certamente sentem uma espécie de nostalgia por essa Rua Conde. Não há como trazer o passado de volta ao presente, mas por que esta Rua Conde, a Rua dos Japoneses, inspira tanta nostalgia e é preenchida com lembranças como se fosse o berço da comunidade?

É sem dúvida porque, após carregarem o mesmo sonho e viajarem juntos por uma longa jornada marítima, quando finalmente chegaram às lavouras, encontraram-se em meio a uma tragédia inesperada, de partir o coração, que não podiam sequer chorar. E o lugar onde finalmente conseguiram escapar das lavouras e respirar aliviados foi a Rua Conde, que serviu como um cadinho de amizade onde se consolaram e se encorajaram mutuamente, levantando novo ânimo.

A Rua Conde entre, aproximadamente, 1913 e 1924
Desde os primeiros anos da Era Taisho (1913–14) até o auge do período (por volta de 1923–24), a Rua dos Japoneses contava com uma série de figuras excêntricas.

Relembrando, havia um médico chamado Yoshio Toda, conhecido por ser alegre e de espírito cavalheiresco. Mais tarde, ele foi para Parintins, no Amazonas, onde trabalhou como médico, e dizem que ainda está vivo. Depois que o Sr. Toda partiu, veio da América do Norte o Sr. Shōkichi Itō, mas ele também se mudou para a Manchúria e, na época da Guerra Sino-Japonesa, ele mantinha um hospital respeitável em Xinjing.

Havia também um alfaiate famoso por ter um mau gênio quando bêbado, chamado Fujiyasu, que, ao se embriagar, gritava em voz alta: "Não me conhecem? Eu costurei as vestes do falecido Imperador!" e atirava objetos descontroladamente, assustando todos que o conheciam pela primeira vez. Além desses, havia uma figura popular na Rua Conde, um vendedor ambulante chamado Iso'emon Kitō, que vinha dos mares do sul. Ele era um homem destemido que carregava brinquedos e cerâmicas japonesas até os confins da Amazônia. Embora fosse um homem muito feio e tivesse o hábito de fungar constantemente pelo nariz, ele era um mestre na flauta shakuhachi. Nas noites de lua, quando ele tocava com melodia suave do alto da colina, as moças negras e brancas daquele bairro saíam correndo com seus tamancos de madeira e dançavam ritmicamente ao som do Kappore.

Nessa época, um grupo de jovens japonesas que trabalhavam como empregadas domésticas alugou um quarto nesta rua para usá-lo como clube. Elas se reuniam ali todo sábado à noite, liberadas da dificuldade da língua portuguesa ainda desconhecida, e passavam a noite conversando alegremente. Às vezes, alguns jovens rapazes se juntavam à festa, tornando o ambiente ainda mais animado e barulhento.

Assim, a Rua Conde de Sarzedas era, naquela época, não só o único lugar de descanso para os imigrantes japoneses, como também a base para o futuro deles.

A ocupação principal do Sr. Kimura era carpinteiro, mas houve um tempo em que ele, juntamente com os Srs. Ishihara, Bōzako, Nakayama (Tadashi) e Tamura, fazia sorbet e o vendia nas ruas, dividindo as tarefas. Este Sr. Tamura era o Sr. Yoshinori, da Província de Kochi, pai do atual deputado federal Yukishige. Na época da chegada do segundo navio, o Ryōjun-Maru, ao Brasil, ele lamentava: "Meu filho finalmente terminou o ensino fundamental. Ele quer continuar os estudos, mas estamos tão pobres que não consigo pagar os estudos dele...".
"Ele é inteligente, e é um bom rapaz. Faça o que puder para que ele estude".
Dizia-se que, diante disso, todos juntos o ajudaram e apoiaram.

O Sr. Yukishige Tamura, que continuou a estudar enquanto trabalhava e se formou na Faculdade de Direito, tornou-se uma esperança para os japoneses residentes no Brasil. Em 1958, como chefe da delegação de deputados federais em visita ao Japão, ele homenageou a pátria-mãe em nome de seus pais e foi condecorado com a Ordem do Tesouro Sagrado, Terceira Classe. Ele é uma figura da qual a comunidade pode se orgulhar, como o melhor da segunda geração nascida na Rua Conde de Sarzedas.

Na Rua Conde, havia Kiyohachi Kimura
O motivo pelo qual escrevi longamente sobre as lembranças da Rua Conde ao falar do Sr. Kiyohachi Kimura foi que eu queria esboçar, ainda que indiretamente, a ambiência do bairro. Essa ambiência era resultado da influência de sua personalidade, que era a própria bondade. Isso se manifestava em sua existência como líder e em seu estilo de vida cavalheiresco, que consistia em "derrubar os fortes e auxiliar os fracos", e não era o tipo de coisa de pura encenação ou discurso moralista. Ele trabalhava silenciosamente e abordava os moradores com uma atitude verdadeiramente amigável.

O Sr. Kimura parecia ser uma pessoa discreta e sem alarde, mas todos gravavam em seus corações que "Na Rua Conde, havia Kiyohachi Kimura".

Onde quer que se reúna um grande número de japoneses, incidentes problemáticos sempre irrompem, mas a Rua dos Japoneses, onde o Sr. Kiyohachi Kimura residia, era o próprio paraíso da paz.

Há também uma lenda de bravura que diz que o Sr. Kimura e mais duas pessoas andavam pela Rua Conde com o torso nu, usando apenas tamancos e brandindo espadas japonesas... Mas, independentemente disso, sua existência era grandiosa. Ele fazia valer o que era certo e repreendia o que era errado, obtendo o apoio dos jovens e garantindo que a Rua dos Japoneses não perdesse seu espírito novo e íntegro.

Há um ditado que diz: "Governar o mundo através da não-ação". O Sr. Kiyohachi Kimura não possui grandes reviravoltas ou dramas a serem narrados. Certamente, é preferível deixar muito legado para o mundo sem nada ter para contar do que ter muito para contar e pouco para dar ao mundo. Na época atual, em que muitas vezes se tenta julgar as pessoas pela sua riqueza ou pobreza, a lembrança do Sr. Kiyohachi Kimura é profundamente sentida.

Ele faleceu devido a doença em 14 de maio de 1953 (28º ano da Era Showa). Sua esposa, a Sra. Miko, havia falecido no ano anterior.

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